quarta-feira, 29 de julho de 2015

COLHEITA - por Cris Guerrra

Eu procurava o amor em jardins de cactus. Vinha buscando o fruto em árvores erradas, e nas mordidas sentia o gosto azedo, que amarga no fim da boca. Colhi amores podres, comidos pelo tempo e dor.

Foi preciso paciência – e um outro tempo – amadurecendo um fruto para colhê-lo doce, suave, terno e delicado. Simples como naturalmente é.

Eu imaginava haver segredos por trás dos espinhos. Mas é puro acaso que amores e espinhos se encontrem em botões abertos ou fechados. A rima entre amor e dor é armadilha.
O verdadeiro fruto está ao alcance das mãos – mas é tão rasteiro, que quase não se vê. É preciso passear sem fome para enxergá-lo redondo, vermelho. Para então mordê-lo distraído como numa tarde de chuva.

FINALMENTE - por Cris Guerra

Provavelmente ninguém vai lhe ensinar isto. Dê um jeito de aprender, você vai precisar. Saiba desistir, porque em algum momento da vida isso vai ser necessário. Focar o que é, e não o que poderia ter sido. Colocar a vida à frente do orgulho. Seus desejos à frente do que os outros desejam pra você. Uma ousadia, um disparate, uma loucura, eu sei. Provavelmente ninguém vai lhe ensinar a entender o que você realmente deseja. Mas dê um jeito de aprender. Em algum momento da vida, desistir vai exigir mais coragem que seguir em frente. Desistir será o mesmo que parar de tentar. E parar de tentar pode ser finalmente o começo.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

ORA BOLAS - por Cínthya Verri


Amar não é investir, é gastar — quanto mais gastamos, mais ganhamos. Quem pergunta ainda quer ficar, mas tem vergonha do que deseja. Aprendi logo que é assim mesmo: criar uma relação é construir. (…) e namorar é sempre um perrengue, ora bolas. É difícil mesmo conciliar vontades, paixão é aprender a gostar sem que isso seja uma ameaça.Quando nos apaixonamos, nossa personalidade entra em xeque — queremos agradar, mas isso custa mais do que gostaríamos. Só evolui no relacionamento quem muda, quem abandona princípios, quem tem coragem. Isso leva tempo. E, muitas vezes, mil relacionamentos ou mil relacionamentos dentro do mesmo casal. 
(…)

Só o desamor não tem cura. Aprender a gostar é um direito. Esse tipo de tecnologia é coisa nova, por isso, amedronta. Mas a verdade é que os casamentos modernos exigem muito mais do que antigamente. Não é simplesmente uma sociedade, nem mesmo um brasão familiar. Viver junto é um desafio. Viver junto e bem é aprendizagem. É fazer beleza quando ninguém enxerga.

Respeito - por Junior de Paula

Respeite minha individualidade, meus desejos e minhas verdades, meus defeitos e qualidades, minha coragem e minha fragilidade. Respeite o que sou, para onde vou, respeite o que eu falei e não aquilo que você acha que escutou. Respeite o caminho que percorri para chegar até aqui, o meu jeito de entrar e depois sumir, o tempo que levei pra me levantar depois de cair. Respeite o meu ponto de vista, a minha ilusão realista, se me escondo sem dar pista, a minha falta de paciência budista.

Me respeite pelas decisões que tomei, quando digo que não quero, que me cansei, pelos sonhos que tive e não realizei. Me respeite pelas amizades que construí, por engolir as lágrimas e sorrir, por me fechar depois de muito me abrir, me respeite porque tentei, não necessariamente porque consegui. Me respeite pela minha força e minha fraqueza, minhas inseguranças e minhas certezas, minha amargura e minha falta de delicadeza. Me respeite por não me respeitar, por não ficar satisfeito, por não me acomodar, por querer ir além, por não conseguir parar.

Respeite aquilo que acredito, o sentimento que digito, o meu amor e o meu conflito. Respeite a força que me movimenta, a expectativa que só aumenta, a falta de cor, a nuvem cinzenta. Respeite por tentar fazer o certo, para ir para longe quando você me queria por perto, por querer ser mar, quando eu insistia em ser deserto. Respeite a minha descrença e minha indiferença, a falta de equilíbrio, a ofensa, o meu julgamento e a minha sentença. Respeite, porque sem respeito não compensa.

domingo, 26 de julho de 2015

Das Despedidas - por Wigvan Pereira

Então disse o meu pai:
Volta pra estrada que o mundo é seu. Volta pra terra que te chama. Volta pro vento que te abraça. Porque você é feito para o caminho e o caminho é feito para a solidão.

Então disse a minha mãe:
Vai, e nao esquece de beijar cada desconhecido e mandar lembranças minhas. Leve apenas o mínimo. O desapego te ensinei para que coisa nenhuma te possua. Não escute nada que nao for sua própria voz. Que a desobediencia te ensinei para que fosse sempre selvagem e livre e doce e forte.

Então disse a minha irmã:
Vai, e traz pra mim o mundo nas suas palavras. Mostre pra mim os lugares onde eu ainda não estive. Pois é disto que você é feito: lugares atravessados, amores e de luz. E é bom ficar bem grande, alto e profundo, para que a minha saudade não tenha sido em vão.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A guria que escreve



"Acontece que fui uma criança teimosa, uma adolescente sem freios e, por tempo demais, uma adulta defendida e agressiva. Hoje, tendo trocado de pele mil vezes, o imprescindível em seu devido lugar, uma pitada de clareza aqui, outra lá... gosto da pessoa que virei. Tenho conforto em estar dentro de mim e não arrasto mais correntes por caminhos de pouca luz. Sei lá por que aconteceu dessa maneira e por que um belo dia acordei de bem com minhas circunstâncias (...) Não faço mais esforço pra fluir, sinto vontade de me expressar, tenho muito o que dizer, e quero falar com todas as pessoas. Deve ser por isso que eu escrevo." (Maitê Proença - Entre Ossos Agora)