domingo, 23 de agosto de 2015
A arte - Parte I
A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo - Vladimir Maiakóvski
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Mãe, senta aqui, me ouve um pouco - por RUTH MANUS
06 Maio 2015 | 10:12
Tá na hora de você dar uma sossegada.
Mãe, pára um pouco. Dois minutinhos só. Sei que a ideia de parar não existe para você, mas eu tô pedindo. Baixa a frequência, senta no sofá, alguém cuida de todo o resto, vai por mim.
Eu sei que não importa quantos anos passem, você tem a eterna sensação de que é responsável por tudo. Pela sua vida, pela minha, pela dos que nos cercam, pelo seu trabalho, pelo meu trabalho, por tudo- inclusive o que está absolutamente fora do seu alcance.
Sei que não adianta eu te dizer que sou adulto, sei que você nunca vai aceitar a ideia de que já não está mais no comando.
Pois é, mãe. Mas o fato é que me flagrei adulto. Não só por causa do trabalho, das responsabilidades e cobranças. Me percebi adulto num certo dia perdido no passado. Dia em que engoli o choro para que você não visse. O dia em que disse em que estava tudo bem quando o peito estava cheio de fantasmas. O dia em que esperei você virar as costas para poder desmoronar.
Por quê? Porque eu sabia que, de um jeito ou de outro, as coisas se ajeitariam. E não ia ser através das suas mãos. Então, por que te preocupar? Por que te angustiar mais do que você já se angustia por conta própria?
Mãe, eu parei de depender da sua barriga, parei de depender do seu peito, parei de depender das mamadeiras quentinhas, parei de depender da ajuda no banho, parei de depender da sua carona.
Mas você nunca parou de se preocupar. Talvez se preocupe ainda mais agora, porque sabe que o voo é cada vez mais alto.
Você se lembra das centenas de vezes em que eu gritei “EU QUERO A MINHA MÃE!” quando era criança? Na verdade eu não queria. Eu precisava. Precisava do seu colo, do seu beijo na testa, do seu cafuné, do seu cheiro. Precisava, porque sem você não havia chão.
Hoje eu não preciso, mãe. Você já me ensinou a amarrar os sapatos, andar olhando pra frente, levantar das quedas, limpar as lágrimas, rir de mim mesmo e seguir em frente. Mais do que me ensinar, você foi o exemplo vivo disso.
Sério mãe, o mundo gira sem que você o empurre. E eu me viro sem que você perca o sono. Porque chegamos num ponto da vida em que eu perco o sono ao te ver sem dormir. Essa dinâmica já não faz mais sentido.
O famoso “eu quero a minha mãe!” é agora. Agora eu quero você. Mas quero você tranquila, ouvindo minhas histórias, mexendo no meu cabelo, rindo comigo, opinando, discordando. Não de peito apertado. Não suspirando pelos cantos achando que eu não vou encontrar o caminho certo. Eu vou. Você me deu o melhor mapa.
Aceite meu presente desse ano: uma relação de amor e de parceria, não mais de dependência, nem prática, nem emocional. Tanto minha quanto sua.
Meu presente, na verdade, é quase um pedido. Essa noite, mãe, deite a cabeça no travesseiro sabendo que está tudo bem. Que mesmo quando minha vida estiver dura, você não precisa ficar com os olhos arregalados, olhando para o teto buscando saída. Isso é comigo.
Você construiu uma pessoa com o que havia de melhor em você. Deu o que tinha e o que não tinha para me fazer feliz e sólido. E eu estou aqui, consciente da minha sorte e da minha força.
Olhe por mim, peça por mim, orgulhe-se de mim. Deixe-me ser de novo a luz dos seus olhos, como fui quando era um bebê sorridente. Não me iludo, achando que você vai parar de se preocupar. Sei que é impossível. Mas deixe-me hoje ser eu quem te abraça e te diz baixinho: está tudo certo.
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Medidor de Passos - 29/12/2014
Cheguei na sua casa depois de uma caminhada. Tirei aquele cinto que amarro no abdomên para controle dos batimentos cardíacos e na sequência saco da cintura o medidor de passos.
– Madrinha, o que é isso?
– Um medidor de passos. Serve pra me dizer a distância que eu já andei.
– ‘ManêêÊro’!
Resolvi voltar caminhando e você e seu irmão quiseram dessa vez me acompanhar. Antes de sairmos da sua casa você me pede:
– Posso colocar esse ‘me-di-dor-de-pa-ssos’ (pausadamente) na minha cintura?
– Pra quê?
– Ué… Pra eu saber quantos passos eu vou dar, né? Dãr!
(tum-tum-pushhh .. Aguenta essa madrinha!)
Eu topei com a mesma paciência que tive durante os 2 kilometros que caminhamos juntos. Em todo murinho que encontramos você subiram, toda poça de água foi devidamente desviada, as decorações de natal em cada casa observadas e comentadas. Êêê vida de interior gostosa essa, heim!
Por 2 vezes você curioso me interrompe:
– E agora, madrinha? Quantos passos eu já dei?
Eu achei ótimo. Vocês nessa idade geralmente nos interrompem pra perguntar se falta muito tempo pra chegar. Mais importante que a chegada - já diziam nossos avós - é o caminho. Te ver preocupado com os passos e menos ansioso com o tempo de chegada valeu por uma sessão de coaching ou terapia.
Na nossa caminhada de hoje eu cuidei de ti, mas tu nem sabes que também cuidou muito de mim.
Obrigada afilhado.
A Maior Escada do Mundo (05/03/2014)
– Pai, o que o Opa é da gente?
– Avô emprestado, Mile.
– Emprestado?
– Sim. Ele e a Oma nunca tiveram filhos. Nós dois trabalhavamos juntos na Antarctica. Nos gostamos muito e por isso, nos adotamos como família. Eu e a mãe somos os filhos emprestados e você e sua irmã, as netas emprestadas.
***
Hoje, Opa. Dia 05 de março de 13 anos atrás, bem por essa hora (entre meio dia e uma hora da tarde), nós te devolvíamos. A primeira de todas as devoluções que eu tive que fazer. E eu confesso, a mais dolorida. Não só por ter sido a primeira, não só porque eu era ainda tão jovenzinha, mas porque Opa, você foi a prova de que o amor não depende de relação genética alguma.
Você que checava nossos boletins, nos presenteava com flores, cartas datilografadas na sua maquina de escrever verde água, e com salgadinhos e refrigerantes de frutas que acompanhavam as cartas. Você que segurava a minha mão pacientemente enquanto eu me equilibrava no paralelepípedo. Você que me ensinou as primeiras palavras em alemão e deu à toda minha família a descendência germânica que todos em Joinville tinham, menos a gente. Você que morava em uma casinha de madeira tão simples, tão linda e tão caprichada. Você que tinha anões no seu jardim e eu lembro que um deles nós batizamos de “Sinfrônio”. Pintávamos todos os anos o Sinfrônio depois dos verões quentes e ‘desbotantes’. Você que guardava as tampinhas de garrafas e palitos de picolés que salvavam as nossas maquetes da escola. Você que tinha sempre balinhas de hortelã em um pote em cima do armário e que pra evitar a fadiga, nos fazia chupar picolés de chocolate com um copinho debaixo. Se alguma gota escapasse e sujasse a blusa da escola, sua esponja e seu tanque davam sempre um jeitinho. Você que carregava meus baldinhos de praia, construía castelos lindos na areia e catava conchas e estrelas do mar comigo. Tirava os piches dos meus pés e me dava banho no chuveirão do quintal pra tirar a areia do corpo e dos cabelos. Você que consertava as luas minguantes e crescentes, me fazendo acreditar que era dono da maior escada do mundo e que sim, você sempre consertava tudo.
Você que nos ensinou que nada quando quebra deve ser jogado fora. Há consertos e conversas para todos os problemas. Você que foi o melhor amigo dos meus pais por anos a fio apaziguando discussões e aconselhando feito um verdadeiro pai. Você foi o Avô mais presente e mais dedicado de duas meninas. Das tuas duas pequenas.
Hoje Opa, eu lembro do dia em que te devolvi. Não tenho palavras pra traduzir a dor que foi e tampouco pra expressar a alegria que existe ao sentir que eu tive um Opa emprestado. Hoje Opa, agora, nesse exato momento, é a saudade que me deixa pequena outra vez. É saudade que me faz digitar tão rápido ainda que a vista esteja assim, molhada e confusa pelas lágrimas de saudade.
Obrigada Opa. Obrigada por ter escolhido a nossa família pra ser a sua. Obrigada por todos os dias em que fomos a sua total prioridade. Obrigada por todos os almoços de domingo, por todas as nossas férias na praia, por todos os natais e páscoas. Obrigada por todas as tardes que você cuidou de mim enquanto meus pais lutavam em seus empregos. Lembro das tardes de verão que dormi suada, com os cachos dourados grudados na testa enquanto você e a Oma abdicavam do ventilador e direcionavam o eletrodoméstico de luxo para velar e refrescar o meu sono. Obrigada por toda a paciência que teve como duas meninas pequenas e mimadas. Obrigada Opa, por ter vivido na nossa vida, por ter deixado nossas vidas viverem na sua. Obrigada por ter vindo e por ter partido deixando só o amor como herança. Ah, não posso esquecer do seu livro de despesas e da sua máquina de escrever que deixou pra mim de presente. Do livro de despesas aprendi a responsabilidade financeira e me emocionei ao ler todos os dias 15 de abril de 12 anos a fio, "flores para a princesinha Jamile" escritos com teu próprio punho. E da sua máquina de escrever me veio essa vontade louca de vomitar sentimentos em frases e histórias. Nela escrevi meus primeiros poemas. Baita herança, Opa! Danke!
Eu tenho saudades de muitos, mas de você, Opa Ary Wunderlich, eu tenho mais.
Um único desejo pra hoje: uma escada do tamanho daquela que eu acreditava que você tinha pra consertar a lua. Uma escada que chegasse no céu pra eu poder te dar um abraço e dizer, agora de uma forma mais madura, mas nem por isso menos pura:
Eu te amo, Opa! Eu te amo muito!
Ich liebe dich. Danke.
Einen Kuss von seinem kleinen Mädchen.
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