quinta-feira, 6 de agosto de 2015

A Maior Escada do Mundo (05/03/2014)

– Pai, o que o Opa é da gente?
– Avô emprestado, Mile.
– Emprestado?
– Sim. Ele e a Oma nunca tiveram filhos. Nós dois trabalhavamos juntos na Antarctica. Nos gostamos muito e por isso, nos adotamos como família. Eu e a mãe somos os filhos emprestados e você e sua irmã, as netas emprestadas.

***

Hoje, Opa. Dia 05 de março de 13 anos atrás, bem por essa hora (entre meio dia e uma hora da tarde), nós te devolvíamos. A primeira de todas as devoluções que eu tive que fazer. E eu confesso, a mais dolorida. Não só por ter sido a primeira, não só porque eu era ainda tão jovenzinha, mas porque Opa, você foi a prova de que o amor não depende de relação genética alguma. 

Você que checava nossos boletins, nos presenteava com flores, cartas datilografadas na sua maquina de escrever verde água, e com salgadinhos e refrigerantes de frutas que acompanhavam as cartas. Você que segurava a minha mão pacientemente enquanto eu me equilibrava no paralelepípedo. Você que me ensinou as primeiras palavras em alemão e deu à toda minha família a descendência germânica que todos em Joinville tinham, menos a gente. Você que morava em uma casinha de madeira tão simples, tão linda e tão caprichada. Você que tinha anões no seu jardim e eu lembro que um deles nós batizamos de “Sinfrônio”. Pintávamos todos os anos o Sinfrônio depois dos verões quentes e ‘desbotantes’. Você que guardava as tampinhas de garrafas e palitos de picolés que salvavam as nossas maquetes da escola. Você que tinha sempre balinhas de hortelã em um pote em cima do armário e que pra evitar a fadiga, nos fazia chupar picolés de chocolate com um copinho debaixo. Se alguma gota escapasse e sujasse a blusa da escola, sua esponja e seu tanque davam sempre um jeitinho. Você que carregava meus baldinhos de praia, construía castelos lindos na areia e catava conchas e estrelas do mar comigo. Tirava os piches dos meus pés e me dava banho no chuveirão do quintal pra tirar a areia do corpo e dos cabelos. Você que consertava as luas minguantes e crescentes, me fazendo acreditar que era dono da maior escada do mundo e que sim, você sempre consertava tudo.

Você que nos ensinou que nada quando quebra deve ser jogado fora. Há consertos e conversas para todos os problemas. Você que foi o melhor amigo dos meus pais por anos a fio apaziguando discussões e aconselhando feito um verdadeiro pai. Você foi o Avô mais presente e mais dedicado de duas meninas. Das tuas duas pequenas.

Hoje Opa, eu lembro do dia em que te devolvi. Não tenho palavras pra traduzir a dor que foi e tampouco pra expressar a alegria que existe ao sentir que eu tive um Opa emprestado. Hoje Opa, agora, nesse exato momento, é a saudade que me deixa pequena outra vez. É saudade que me faz digitar tão rápido ainda que a vista esteja assim, molhada e confusa pelas lágrimas de saudade.

Obrigada Opa. Obrigada por ter escolhido a nossa família pra ser a sua. Obrigada por todos os dias em que fomos a sua total prioridade. Obrigada por todos os almoços de domingo, por todas as nossas férias na praia, por todos os natais e páscoas. Obrigada por todas as tardes que você cuidou de mim enquanto meus pais lutavam em seus empregos. Lembro das tardes de verão que dormi suada, com os cachos dourados grudados na testa enquanto você e a Oma abdicavam do ventilador e direcionavam o eletrodoméstico de luxo para velar e refrescar o meu sono. Obrigada por toda a paciência que teve como duas meninas pequenas e mimadas. Obrigada Opa, por ter vivido na nossa vida, por ter deixado nossas vidas viverem na sua. Obrigada por ter vindo e por ter partido deixando só o amor como herança. Ah, não posso esquecer do seu livro de despesas e da sua máquina de escrever que deixou pra mim de presente. Do livro de despesas aprendi a responsabilidade financeira e me emocionei ao ler todos os dias 15 de abril de 12 anos a fio, "flores para a princesinha Jamile" escritos com teu próprio punho. E da sua máquina de escrever me veio essa vontade louca de vomitar sentimentos em frases e histórias. Nela escrevi meus primeiros poemas. Baita herança, Opa! Danke!

Eu tenho saudades de muitos, mas de você, Opa Ary Wunderlich, eu tenho mais.

Um único desejo pra hoje: uma escada do tamanho daquela que eu acreditava que você tinha pra consertar a lua. Uma escada que chegasse no céu pra eu poder te dar um abraço e dizer, agora de uma forma mais madura, mas nem por isso menos pura:

Eu te amo, Opa! Eu te amo muito!

Ich liebe dich. Danke. 

Einen Kuss von seinem kleinen Mädchen.

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